Mal-do-século, Ultrarromântica ou Byroniana
A segunda geração da poesia romântica brasileira é marcada pela falência dos ideais nacionalistas utópicos dos primeiros românticos. Depressivos e influenciados por Byron e Musset, os ultrarromânticos são dominados pelo 'Mal do Século', ou spleen: o tédio e a melancolia dos que não veem outra solução para a 'dor vivente' a não ser a morte ou o retorno à infância. O escape não é mais para a terra utópica de Gonçalves Dias e sim para a nostalgia dos '8 anos', de Casimiro de Abreu (1839-1860), ou para a 'amiga morte', de Junqueira Freire (1832-1855).
As principais características da segunda geração foram o profundo subjetivismo, o egocentrismo, o individualismo, a evasão na morte, o saudosismo (lamentação) em Casimiro de Abreu, por exemplo, o pessimismo, o sentimento de angústia, o sofrimento amoroso, o desespero, o satanismo e a fuga da realidade.
Principais Autores:
- Álvares de Azevedo
Representante máximo do Ultrarromantismo na poesia brasileira, considerado o 'Byron brasileiro', apresenta, além dos poemas sentimentais, também uma poesia irônica e prosaica, em que aborda com consciência crítica o exagerado sentimentalismo de sua geração.
Nascido em 12 de setembro de 1831, em São Paulo, transferiu-se logo com a família para o Rio de Janeiro. Sensível e adoentado, teve o seu primeiro contato com a morte – um de seus temas mais frequentes – aos 4 anos, quando morreu seu irmão Manuel Inácio. Estudou nos colégios Stoll e D. Pedro II, onde foi aluno de Gonçalves de Magalhães.
Aos 16 anos, falando vários idiomas e ávido leitor de poesia, foi cursar a Faculdade de Direito em São Paulo. Tornou-se amigo de Aureliano Lessa e Bernardo Guimarães, também poetas, e boêmios, prováveis membros da Sociedade Epicureia, cuja meta era a busca do prazer acima de tudo. Mas a lenda contribuiu para que se difundisse a sua imagem de 'Byron brasileiro'.
Tuberculoso, concluiu o quarto ano do curso de Direito e foi passar as férias no Rio de Janeiro. Para escapar do clima desfavorável da capital paulista, pretendia cursar o último ano na Faculdade de Direito de Olinda, em Pernambuco. Ao passear a cavalo pelas ruas do Rio, sofreu uma queda, que trouxe à tona um tumor na bacia. Sofrendo dores terríveis, foi operado – sem anestesia – e, após 46 dias de padecimento, morreu no Domingo de Páscoa, 25 de abril de 1852.
A mais importante obra de Álvares de Azevedo foi publicada em 1853. Seguindo orientações do poeta, seu primo e amigo Domingos Jacy Monteiro organizou o volume, que passaria, nas edições posteriores, por uma série de alterações.
Primeira Parte: predomina a poesia mais sentimental. São ressaltados o medo de amar, o desejo vago por virgens intangíveis, o sentimento de culpa ante os desejos carnais e o fascínio pela morte. Trata-se de uma poesia de seres imaginários e ideias abstratas envoltas em um clima de obscuridade.
Segunda Parte: Álvares de Azevedo envereda por um romantismo irônico e sarcástico. Sem abandonar os temas do amor e da morte, passa a poetizar os objetos concretos que o rodeiam. Vai agora, em processo metalinguístico, dialogar ironicamente com os grandes autores do Romantismo. Escreve sobre uma queda de cavalo, sobre o dinheiro (ou a falta deste), isto é, sobre temas corriqueiros que não cabiam na poesia onírica e sentimental da Primeira Parte.
Terceira Parte: não constava dos planos do autor, e foi introduzida à obra 20 anos após sua primeira publicação, pelo crítico Joaquim Norberto. Nela foram reunidos os poemas de Álvares de Azevedo que constituem uma continuação da Primeira Parte.
A morte constitui o tema de grande parte dos poemas. O paradoxo é que sendo ele o poeta dos versos sombrios e cinzentos, foi também quem introduziu o humorismo na poesia brasileira, devido à irreverente ironia de alguns dos seus poemas, como o famoso "Namoro a cavalo" ou "A lagartixa".
Outro elemento constante em suas poesias é a mulher, ora apresentada como virgem, bondosa e amada, ora prostituta, ordinária e vadia. Seus poemas também são marcados pelo patriotismo e o saudosismo da infância, além de certo satanismo, ligado à morbidez e à rebeldia dos românticos.
Álvares de Azevedo é a patrono da Cadeira no 2 da Academia Brasileira de Letras.
- Casimiro de Abreu
Foi filho do abastado comerciante e fazendeiro português, José Joaquim Marques de Abreu, e de Luísa Joaquina das Neves, uma fazendeira de Capivary, viúva do primeiro casamento. Com José Joaquim ela teve três filhos, embora nunca tenham sido oficialmente casados. Casimiro nasceu na Fazenda da Prata, em Capivary (Silva Jardim), propriedade herdada por sua mãe em decorrência da morte do seu primeiro marido, de quem não teve filhos.
A localidade onde viveu parte de sua vida, Barra de São João, é hoje distrito do município que leva seu nome, e também chamada "Casimirana", em sua homenagem. Recebeu apenas a instrução primária no Instituto Freeze, dos onze aos treze anos, em Nova Friburgo, então cidade de maior porte da região serrana do estado do Rio de Janeiro, e para onde convergiam, à época, os adolescentes induzidos pelos pais a se aplicarem aos estudos.
Aos treze anos transferiu-se para o Rio de Janeiro para trabalhar com o pai no comércio. Com ele, embarcou para Portugal em 1853, onde entrou em contato com o meio intelectual e escreveu a maior parte de sua obra. O seu sentimento nativista e as saudades da família escreve: "estando a minha casa à hora da refeição, pareceu-me escutar risadas infantis da minha mana pequena. As lágrimas brotavam e fiz os primeiros versos de minha vida, que teve o título de Ave Maria".
Seus versos mais famosos do poema Meus oito anos: Oh! Que saudades que tenho/da aurora da minha vida,/ da minha infância querida/que os anos não trazem mais!/ Que amor, que sonhos, que flores,/naquelas tardes fagueiras,/ à sombra das bananeiras,/ debaixo dos laranjais!
Em 1857 retornou ao Brasil para trabalhar no armazém de seu pai. Isso, no entanto, não o afastou da vida boêmia. Escreveu para alguns jornais e fez amizade com Machado de Assis. Escolhido para a recém-fundada Academia Brasileira de Letras, tornou-se patrono da cadeira número seis.
Tuberculoso, retirou-se para a fazenda de seu pai, Indaiaçu, hoje sede do município que recebeu o nome do poeta, onde inutilmente buscou uma recuperação do estado de saúde, vindo ali a falecer. Foi sepultado conforme seu desejo em Barra de São João, estando sua lápide no cemitério da secular Capela de São João Batista, junto ao túmulo de seu pai. Em 1859 editou as suas poesias reunidas sob o título de Primaveras.
Espontâneo e ingênuo, de linguagem simples, tornou-se um dos poetas mais populares do Romantismo no Brasil. Seu sucesso literário, no entanto, deu-se somente depois de sua morte, com numerosas edições de seus poemas, tanto no Brasil, quanto em Portugal. Deixou uma obra cujos temas abordavam a casa paterna, a saudade da terra natal, e o amor (mas este tratado sem a complexidade e a profundidade tão caras a outros poetas românticos). A despeito da popularidade alcançada pelos livros do poeta, sua mãe, e herdeira necessária, morreu em 1859 na mais absoluta pobreza, não tendo recebido um tostão sequer em termos de direitos autorais, fossem do Brasil, fossem de Portugal.
Suas obras foram Camões e o Jau, teatro (1856); Carolina, romance (1856); Camila, romance inacabado (1856); A virgem loura, Páginas do coração, prosa poética (1857); As primaveras(1859), foram reunidas na Obras de Casimiro de Abreu, edição comemorativa do centenário do poeta.
- Junqueira Freire
Luis José Junqueira Freire nasceu em Salvador (BA), no dia 31 de dezembro de 1832. Filho de José Vicente de Sá Freire e Felicidade Augusta Junqueira, teve a infância e a juventude comprometidas por problemas de ordem cardíaca, fato que o levou a concluir os estudos primários de forma irregular.
Em 1849 matriculou-se no Liceu Provincial, onde cursou Humanidades e se destacou como um excelente aluno, grande leitor e poeta. Por pressões familiares e motivado pelas inconstâncias da própria vida, ingressou na "Ordem dos Beneditinos" dois anos mais tarde, em 1851.
Nas clausuras do Mosteiro de São Bento de Salvador, o jovem Junqueira Freire não manifestava a menor vocação monástica. Este período de sua vida foi repleto de amarguras, revoltas e arrependimentos pela decisão irrevogável que tomara. Porém, pôde fazer suas leituras preferidas e dedicar-se a escrever poemas, além de atuar como professor atendendo pelo nome de Frei Luís de Santa Escolástica Junqueira Freire.
No ano de 1853 pediu a secularização que seria outorgada apenas no ano seguinte. Este recurso que lhe permitiria libertar-se das disciplinas monásticas, embora ainda permanecesse sacerdote por força dos votos perpétuos. Assim, recolheu-se a casa de sua mãe onde redigiu uma breve autobiografia, que manifestava um agudo senso de auto-análise. Paralelamente, dedicou-se a reunir uma coletânea de seus versos, que viria a ser intitulada Inspirações do Claustro. Esta obra foi impressa na Bahia pouco tempo antes de sua morte, ocorrida em 24 de junho de 1855, aos 23 anos, motivada pelas enfermidades cardíacas de que sofreu por toda a vida.
A figura humana de Junqueira Freire é facilmente percebida ao analisarmos o conteúdo de sua obra. "Contrário a si mesmo, cantando por inspirações opostas, aparece-nos o homem através do poeta romântico", como o descreveu Machado de Assis. O jovem que sofreu a vida debilitado em sua saúde, e optou ainda na adolescência por uma vida clerical, via-se prisioneiro do próprio erro e lamuriava-se clamando pela morte em seu claustro.
Sua curta e sofrida passagem no mosteiro, forneceu-lhe os temas mais freqüentes dos versos. Daí provieram as características principais de sua personalidade jovial, porém conflitante, que desembocaram em citações como o prólogo de Inspirações do Claustro: "Cantei o monge, porque ele é escravo, não da cruz, mas do arbítrio de outro homem. Cantei o monge, porque não há ninguém que se ocupe de cantá-lo. E por isso que cantei o monge, cantei também a morte. É ela o epílogo mais belo de sua vida: e seu único triunfo."
Portanto, fica evidente o teor complexo de sua mensagem poética, comum aos Românticos e vulnerável à penumbra do segundo período da geração Romântica no Brasil. Alguns tópicos como o drama da escolha errônea em sua vocação, aliada à crise moral e o conflito interior que o levou a retroceder em sua opção, refletem no horror ao celibato; no desejo reprimido que o perturbava e aguçava o sentimento de pecado entre a oração e a heresia; na revolta contra a regra, contra o mundo e contra si; no remorso e, como conseqüência, na obsessão da morte. Um tumulto, um confronto de ideais comprimidos às celas do mosteiro, externado mas não suprimido. Além de um sentimento brasileiro que beirava o ufanismo, e uma tendência antimonárquica, social e liberal.
Teve como obras: Inspirações do Claustro (1855); Elementos de Retórica Nacional (1869); Obras, edição crítica por Roberto Alvim, 3 vols. (1944); Junqueira Freire, organizado por Antonio Carlos Vilaça(Coleção Nossos Clássicos, n. 66); Desespero na Solidão, organizado por Antonio Carlos Vilaça (1976) e Obra Poética de Junqueira Freire (1970).
- Fagundes Varela
Luís Nicolau Fagundes Varela nasceu no estado do Rio de Janeiro, na cidade de Rio Claro, em 18 de Agosto de 1841. Era filho de Emiliano Fagundes Varela e Emília de Andrade. Passou a infância na fazenda Santa Rita e na vila de S. João Marcos, onde o pai era juiz. Posteriormente, residiu em Catalão, Goiás; nesta cidade, Fagundes Varela conheceu Bernardo Guimarães, o então juiz municipal. De volta ao Rio de Janeiro, morou em Angra dos Reis e Petrópolis, concluindo ali os estudos primários e secundários.
Em 1861 publicou o primeiro livro de poesia, Noturnas. No ano de 1859 Fagundes Varela viaja para São Paulo, e em 1862 matricula-se na Faculdade de Direito, que nunca seria concluída, optando pela literatura e dissipando-se na boemia, fortemente influenciado pelo ''byronismo'' dos estudantes paulistanos. No mesmo ano casou-se com Alice Guilhermina Luande, atriz circense da cidade de Sorocaba. Este matrimônio não era desejado pelas famílias do casal, assim a penúria financeira de Fagundes Varela foi agravada.
Uma das mais belas obras do autor é o poema Cântico do Calvário, inspirado na morte precoce de Emiliano, seu primeiro filho, falecido aos três meses de vida. A partir deste momento, o poeta entrega-se definitivamente ao alcoolismo. Em contrapartida, cresce sua inspiração criadora.
Vozes da América foi publicada em 1864, e sua obra-prima Cantos e Fantasias, em 1865. No ano seguinte, viaja para Recife e é avisado sobre o falecimento da esposa. Assim, em 1867 retorna para São Paulo e matricula-se novamente no 4º ano de Direito. Porém, abandona o curso mais uma vez e recolhe-se na casa paterna, em sua cidade natal. Fagundes Varela permanece até 1870 em Rio Claro, compondo suas obras entre noitadas boêmias, vagando indefinidamente pela vida.
Casou-se pelas segunda vez com a prima Maria Belisária, com quem teve duas filhas e um filho que também morreu prematuramente. Em 1870 vai para Niterói na companhia de seu pai, estabelecendo-se ocasionalmente na casa de familiares e ainda freqüentando a vida noturna carioca. Em 17 de fevereiro de 1875, morre aos 34 anos de apoplexia, já em estado de completo desequilíbrio mental.
Em uma de suas primeiras obras (Arquétipo), Fagundes Varela revela-se um hábil na arte de versar. Além da angústia predominante em sua poesia, percebe-se também uma forte apelação religiosa e mística. A influência amorosa e até mesmo os temas sociais e patrióticos enquadram-se na totalidade de sua extensa obra. Varela é o patrono da Cadeira nº 11 da "Academia Brasileira de Letras", por escolha do fundador Lúcio de Mendonça.
Escreveu as seguintes obras: Noturnas (1861); Vozes da América (1864); Cantos e fantasias(1865); Cantos meridionais e os Cantos do ermo e da cidade (1869). Deixou inédito o Anchieta ou Evangelho na selva (1875), O diário de Lázaro (1880) e outras poesias. Otaviano Hudson, amigo fiel, reuniu os Cantos religiosos (1878), com o fim de auxiliar a viúva e filhos do poeta. As Poesias completas, organizada por Frederico José da Silva Ramos, foram lançadas em 1956.

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